sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Palestra de Élio Carravetta: uma verdadeira aula


Quando um jogador vindo de lesão deixa o departamento médico e passa pela fisioterapia, é para as mãos de Élio Carravetta, coordenador de preparação física do Sport Club Internacional, que o atleta concluirá sua recuperação física para que possa voltar aos gramados. Quando o Inter contrata algum talento jovem ou descobre algum diamante a ser lapidado de suas categorias de base, o promissor atleta passa por trabalhos especiais de promoção - e um deles é o de reforço muscular, coordenado por Carravetta. E quando se fala em reforço muscular não é o de hipertrofia do músculo para deixar alguém “bombado” e sim dar condições físicas para que o atleta possa explorar e usufruir ao máximo suas aptidões e habilidades técnicas.

Foi assim com Nilmar, Pato e hoje é com Romário, João Paulo e Lucas Roggia. “É ver o crescimento do atleta, é o seu despertar”, explica Carravetta, que palestrou no último dia 22 de agosto, em evento promovido pelo Convergência Colorada. E exemplos não faltam: ao mencionar a recuperação física, Carravetta lembra que Fernandão certa feita chorou e pensou em desistir do Inter devido aos seus problemas de lesão no púbis e frustrado com o então baixo retorno que estava dando ao clube. Nestes casos entra então o trabalho de conversa com os atletas. “Disse ao Fernandão que ele como líder e exemplo dos demais profissionais, se fizesse isso, estaria sendo covarde”, conta. E complementa: “homem é um todo; atleta é fisico, tático e envolvimento psíquico”.



Exemplo de profissionalismo, Carravetta fala com orgulho de seus atletas e de seus colegas. Fala do empenho do zagueiro Índio no trabalho de recuperação física e do resultado disto nas boas atuações que o jogador vem fazendo. Ressalta que além do trabalho de re-treinamento físico, existem outros trabalhos específicos de capacitação, como o de bola parada e finalização feito pelo Ortiz e que o fruto mais evidente é a evolução de Leandro Damião.

Especialista em Ciência do Esporte, pela Faculdade Católica de Medicina de Porto Alegre, com mestrado em Métodos e Técnicas de Ensino, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e doutorado em Filosofia da Ciência da Educação, pela Universidade de Barcelona, na Espanha, Élio Salvador Praia Carravetta acumula uma experiência superior a 35 anos na área de gestão do treinamento desportivo. No Inter, já se vão quase 15 anos de atuação. Na coordenação de preparação física, englobaram-se categorias de base e o departamento de futebol profissional. Desde 2002, suas funções focam as atividades de reabilitação e programas especiais para os atletas que ingressaram no grupo principal.

Sempre foi próximo do esporte. Vizinho da Sogipa, lá começou no atletismo e chegou a ser campeão brasileiro no 800 metros, inclusive sendo recordista. Ao fazer sua apresentação inicial, o conselheiro e integrante do Convergência Colorada Mário Cassel confessou seu orgulho de ver um ex-aluno da Educação Física na UFRGS tê-lo superado em especialização acadêmica. Como profissional, Élio trabalhou com handebol, futsal e atletismo antes de se estabelecer no mundo do futebol, nos anos 1990.

Para uma platéia de aproximadamente 70 pessoas, Carravetta palestrou sobre o seu trabalho e sobre a gestão de futebol. Resgatou a origem do esporte no final do século XIX, a chegada no Brasil e o início da modernização da gestão. Segundo conta, evoluiu-se de uma estrutura paternalista, com falta de organização e treinamentos improvisados, para estruturas em que a preparação física passa a ser uma atividade especializada e integrando uma comissão técnica, junto com psicólogo, dentista, supervisor e observador. Esta, no caso, foi a comissão utilizada pela seleção na Copa de 1958.

A evolução é permanente. Carravetta observa que nos anos que se seguiram, por tendência do modelo adotado nos times europeus principalmente de especialização da preparação física, diminuiu-se os espaços em campo. “Correndo mais, há menos espaço para jogar, para a habilidade técnica”. Se em 1958, corria-se num jogo de 4 a 6 Km, hoje a distância percorrida por um atleta é de aproximadamente 10 a 12 Km. “De bola em jogo, uma partida hoje tem em torno de 60 minutos e cada jogador tem em média 2 minutos com a bola nos pés. Isto significa que 58 minutos o atleta joga sem a bola”.


Outra mostra de que os tempos são outros no futebol é evidenciada quando Carraveta mostra o quadro com a programação de treinamentos numa semana. Quando o calendário era de apenas um jogo por semana (e 30 jogos por ano), havia espaço para treinos físicos rotineiramente. Hoje, a realidade de jogos quarta e domingo exige que se priorizem treinos técnicos-táticos e na parte física somente os treinos regenerativos, pois precisa-se de 72 horas para se recuperar de uma partida. “A preparação física como grande parte da sociedade pensa simplesmente não existe. No futebol, o que se busca é o equilíbrio das qualidades físicas para melhorar o desempenho individual”.

Ele acrescenta que neste aspecto não se pode estabelecer comparações com outros esportes que jogam com frequência mais intensa porque o que se exige fisiologicamente do corpo em cada modalidade é diferente. “Futebol tem muitas variáveis. A dimensão de um campo muda de um estádio para outro, a grama é diferente em qualidade e altura, influencia ainda o local (altitude, temperatura, ...), fatores particulares desta modalidade e que não se sente em outros esportes coletivos.” Por isso ele ressalta: “jogador tem que ser autodidata, corrigir suas deficiências individualmente, porque não se tem tempo de treino para isto”.


Nesta linha, o treinamento desportivo moderno é de sustentação e explorando muito o lado “cognitivo-ecológico” do atleta. Uma ação pedagógica que vem desde a formação de atletas da base. Já o treinador precisa ter recursos metodológicos, pois ao jogador já não basta mais saber o que fazer, mas por que fazer. Ele explica que, com a evolução da formação, hoje o jogador tem sensibilidade e capacidade de compreensão e para conquistar sua confiança é preciso convicção e muita atitude. “Jogador se ganha com ações, não só com conversa”.

A tarefa é árdua e para tanto um treinador de futebol da atualidade é amparado por diferentes profissionais da ciência do desporto, numa estrutura que atinge mais de 20 profissionais da medicina, nutrição, fisioterapia, educação física, entre outras. Segundo Carravetta, a gestão do futebol atual é uma matricial mista de aspectos funcionais e projetizada. Exige um gerenciamento hierárquico, mas ao mesmo tempo tem que ter projetos na busca da formação de valência de um jogador. Precisa haver integração e unidade entre categorias de base para adaptação para quando chegar ao profissional.


No encerramento da palestra, participantes foram brindados com exemplares de livros em que Élio Carravetta é autor (“O enigma da preparação física no futebol” e “Modernização da Gestão do Futebol Brasileiro”), bem como uma camiseta oficial do Inter e uma manta oferecida pela Confrainter de Bento Gonçalves. Além destas obras, Carravetta tem publicado os livros “O Esporte Olímpico”, “Um novo paradigma nas relações sociais e pedagógicas” e “O Jogador de Futebol - Técnicas, Treinamento e Rendimento”. Um novo livro sobre Gestão no Futebol está a caminho. E certamente será muito bem-vindo.


Paulo Gans ganhou um exemplar de “Modernização da Gestão do Futebol Brasileiro”.
Marcos Marino entrega para Paulo Ricardo o livro “O enigma da preparação física no futebol”.

Mário Cassel entregou a camiseta e a manta aos sorteados.