terça-feira, 13 de agosto de 2013

Orlandelli traz experiência da Europa na análise de equipes e atletas


O movimento Convergência Colorada promoveu nova palestra técnica na noite de 12 de agosto no Auditório do Edel. Com uma minuciosa seleção de dados das principais ligas europeias e análise decorrente, Sandro Orlandelli veio a Porto Alegre para falar sobre Construção e Manutenção de uma Equipe de Futebol. São estatísticas do Campeonato Francês (Ligue 1), Campeonato Alemão (Bundesliga), Campeonato Espanhol (Liga BBVA), Campeonato Inglês (Barclays Premier League) e Campeonato Italiano (Lega Calcio). As informações sobre as ligas e a comparação entre os clubes ajudam no estudo de como se comportam as equipes vencedoras. Um ponto de partida é a observação dos principais times europeus de acordo com o coeficiente de hierarquia formado a partir das participações nas últimas temporadas.

Um primeiro ponto a se notar da observação dos times de elite é que são formados por grupos enxutos. Com dados da temporada 2010, em média, os times da Itália tem 26,9 jogadores por equipe; na Espanha, 26,8; Alemanha 26,7 e, França, 26,5. Assim, os times tem poucos atletas além dos titulares e reservas imediatos. Ele cita que equipes sub-22 treinam com grupo principal e, em média, 25% das equipes europeias tem time B. Entretanto, Orlandelli salienta que esta realidade não pode ser comparada ao Brasil porque, enquanto na Europa um time principal joga cerca de 40 jogos por temporada, em terras brasileiras o número é superior - sendo que alguns clubes já começam a competir nacionalmente com uma considerável jornada de jogos dos estaduais.

Outra fronteira que existe entre o futebol brasileiro e a Europa é o ritmo de jogo. A palavra mais repetida na apresentação de Orlandelli é velocidade. Ele defende que o futuro do futebol é velocidade, pensamento rápido com pouco toque na bola para chegar no gol. Técnica e raciocínio voltados para a característica de transição de jogo e antecipação de passe é um elemento fundamental a se analisar um jogador de base. É também o que brasileiros precisam aperfeiçoar para jogar no Velho Continente.

 
"Hoje futebol é velocidade e velocidade é diferente de correria", diz. Uma partida de alto nível tem mais de mil ações no jogo, um número impensável ao se comparar por exemplo ao estilo de jogo de um time vencedor nos anos 70. Dentre os fatores importantes para o ritmo de jogo é a distribuição de bola, algo que deve ser analisado quantitativamente e qualitativamente. No Brasil nem sempre a função é valorizada e o que se vê são zagueiros e volantes mais voltados para a marcação e com pouca habilidade de saída de bola.

Segundo Orlandelli, contratações devem ser feitas sob critérios técnicos que levam em conta o potencial de performance dos atletas e características específicas essenciais à posição e função tática exigidas. Muito do superávit financeiro de um clube depende do sucesso desse trabalho. Também com base na análise de informações dos principais times europeus, ele define como relevante o estudo sobre a idade dos atletas. Ele explica que o ápice de um jogador é em média entre 27 e 30 anos. Dificilmente um time é campeão com média de idade inferior a 26 anos. Existem, claro, as exceções pois a idade biológica nem sempre é igual e o Campeonato Brasileiro serve de exemplos com atletas mais velhos com alto rendimento, caso de Zé Roberto e Seedorf, ou mesmo de um declínio precoce como o do Ronaldinho Gaúcho que, apesar de ainda ter habilidade diferenciada, já com 28 anos não jogava como no seu ápice.


"O ápice de um jogador é em média entre 27 e 30 anos. Dificilmente um time é campeão com média de idade inferior a 26 anos".

Assim, o palestrante comparou nos times europeus o percentual de minutos jogados por jogadores divididos em faixas etárias. Como resultado, nota-se como vem acontecendo a renovação na Alemanha - não por acaso o país que construiu 300 centros de formação de atletas. Já os italianos cultuam jogadores velhos e a explicação é cultural, de um país que prioriza a qualidade na defesa. Usam jogadores mais velhos e experientes por seu modelo de jogo. A divisão por categorias etárias também é defendida por Orlandelli para a realização de certos treinamentos, pois jogadores em formação tem estrutura diferente e atletas mais maduros.

Orlandelli entende que o ideal para um time é ter metade de seu grupo pelo menos com jogadores formados no clube. Seu exemplo citado é o Barcelona. Seus mapas mostram como a Europa forma poucos atacantes em detrimento de outras funções. E, para as funções com carência, deve-se recrutar externamente, mas sempre com critério com o fim de minimizar erros. Os atletas recrutados de fora também são mapeados pelo palestrante, de acordo com suas origens que ajudam a identificar perfis. O Brasil é o país que mais tem jogadores recrutados pelo exterior, embora o número vem diminuindo e a explicação vai além da economia: é cultural. A Espanha recruta especialmente jogadores latinos, a Itália destaca-se ao contratar principalmente argentinos, a França busca jogadores africanos e a Alemanha tem muitos jogadores do leste europeu e Turquia, por exemplo. Também com a premissa de minimizar erros, ele fala que na Europa é melhor não trazer ninguém do que trazer a pessoa errada.



Entre casos vividos por Sandro Orlandelli, um contado demonstra que um bom analista vai além do campo. Um jogador ao ser observado num jogo mostrou bom rendimento técnico e raciocínio de jogo. Após selecionado, ao descer do ônibus na chegada no clube, o atleta promissor mostrou displicência preocupante. "A mentalidade vencedora se identifica também em gestos e na movimentação. Dentro e fora do campo." Já a análise quantitativa de um jogador tem base no seu desempenho, em tentativas a gol, criação de oportunidades, distribuição de bola, comprometimento e capacidade de recuperação.

O que se busca em um atleta é definido conforme a estratégia de cada clube. A função que define é papel do manager, como conhecido na Europa e que no Brasil começa a ter vez com os diretores executivos, superintendentes de futebol ou outras nomenclaturas que variam assim como suas reais atribuições frente aos treinadores. Orlandelli explica que cabe ao manager implantar modelo de jogo de acordo com a filosofia de futebol do clube. Ele deve gerenciar o desempenho de jogo, o planejamento (atual, ano seguinte e próximos 5 a 10 anos), a já mencionada minimização dos erros, o treinamento aplicado, a descoberta de talentos (como descobrir e como otimizar), a gestão de pessoas, selecionando profissionais qualificados para realizar o trabalho planejado e diminuir conflitos, bem como criar e manter um ambiente produtivo para todos.

Sandro Orlandelli trouxe experiência da Europa para ajudar a reformular o futebol. Entende que há muito a ser feito e, neste sentido, saúda a iniciativa do Convergência Colorada em buscar e incentivar a troca do conhecimento: "É a primeira vez que vejo iniciativa assim, que me pedissem uma apresentação num evento desse formato sem que objetivasse outro retorno, como o financeiro". Ao final de sua apresentação, foi saudado e recebeu os agradecimentos de Marcos Marino, coordenador do movimento responsável pela organização do evento.

Orlandelli rodou o mundo na última década garimpando talentos para o Arsenal da Inglaterra. O profissional trabalhou como scout-chefe do time inglês acompanhando torneios, jogos amistosos e treinos em vários países da Europa, Ásia e no continente Americano. A função de scout não é o que se convencionou a chamar no Brasil de “olheiro”. Muitos dos olheiros do futebol brasileiros agem pela intuição, são geralmente ex-jogadores ou pessoas que vivem no futebol e escolhem as jovens promessas pelo feeling, sem o amparo de métodos científicos. O profissional desenvolveu um programa de detecção de talentos com base em anos de estudo, formação acadêmica e prática nos melhores e mais desenvolvidos centros de futebol do mundo. Ele é graduado em Educação Física, com pós-graduação em Fisiologia do Esporte e Gestão Estratégica de Negócios. Formou-se como treinador profissional pela prestigiada Federação Inglesa de Futebol, vinculada à UEFA.

No Arsenal vivenciou todo o trabalho realizado com os atletas das categorias de base até a chegada ao profissional, tudo supervisionado pelo manager Arsene Wenger, que há 16 anos dirige os gunners. Contratado pelo Atlético Paranaense em 2012, Orlandelli foi para Curitiba com a missão de implementar uma nova filosofia de trabalho no clube, começando com a interrelação dos departamentos de medicina, fisiologia, nutrição, psicologia e comunicação. Já em 2013, colocou-se a serviço do Santos FC, clube que tem tido boas descoberta de jogadores oriundos de sua base.

PERFIL
Sandro Orlandelli, 43 anos, atuou profissionalmente no futebol do clubes: São Paulo FC, SC Corinthians Paulista, Malmo FF (Suécia), Yokohama FC (Japão), Saint Etienne (França), Al Hilal Al Saudi Club (Arábia Saudita). Atuou de 2002 a 2011 como head scout do Arsenal Football Club (Inglaterra). Colaborou na introdução do futsal no Japão e no futebol profissional nas Bermudas. É professor universitário e palestrante em Congressos Nacionais e Internacionais de Futebol.