terça-feira, 29 de outubro de 2013

Felipe Ximenes faz palestra para o Convergência

O movimento Convergência Colorada promoveu no dia 24 de outubro na Câmara de Vereadores de Porto Alegre palestra com Luis Felipe Ximenes, ex-superintendente do Coritiba e ex-gerente de futebol do Fluminense e Atlético-MG, com passagem por outros clubes e integrante da Associação Brasileira dos Executivos de Futebol - ABEX.



Ximenes demonstrou para os integrantes do movimento e convidados o que seria o ciclo em cinco atos de aprendizado de uma nova diretoria, formada por executivos de outros mercados, quando assume um clube de futebol. Ao se apresentar, já advertiu: ele veio para provocar, falar aquilo que nem sempre é fácil ouvir. Ao longo da apresentação,  ele enfatizaria que no futebol quanto mais você sabe, mais vai aumentar o que você desconhece. Que é preciso haver humildade. Pois o (des)conhecimento é importante para aprender a conviver no futebol, ambiente em que sobrevive quem melhor suporta a derrota e não quem mais vence. "Perder é da realidade do futebol. Perde-se muito mais títulos do que se ganha. É natural. Nenhum time vence mais campeonatos do que perde".


Inicialmente, ele ressaltou que as funções exercidas pelo hoje conhecido como Diretor Executivo já existiam há muito tempo. Só não era caracterizada a função como profissional, era feita por diversas pessoas no clube ou mesmo era feita por uma pessoa que possuía uma outra atividade profissional, mas dedicava-se ao clube por paixão. Muitas empresas cresceram fazendo contas na ponta do lápis e administração de caderneta e quando chegaram as tecnologias se perderam. Os clubes são assim, como empresas familiares. Cresceram e mobilizaram milhões, mas em determinado momento passaram a ter dificuldades. É desse novo tempo o ciclo que ele passa a descrever.




Ato 1: Podemos mudar o futebol

Geralmente oriundos de outros mercados, a nova diretoria prepara-se e eventualmente acha que "sabe mais até do que as pessoas que já estão lá dentro, mesmo elas sendo altamente qualificadas". Segundo Ximenes, 90% das pessoas entram com boas intenções e com convicção de que poderiam fazer diferente e contribuir. Acredita-se nos planos e metas de equilibrio financeiro, aproveitamento da base, etc., mas quando assume, percebe-se que não é tão simples. "Você vai, por exemplo, falar com o fisiologista e ele vai te mostrar 30 testes, 200 exames de tudo que ele tem lá dentro. Achava-se que não tinha nada, percebe-se que o seu plano não era tão desenvolvido assim". Por isso, ele recomenda: "Não pequem pela arrogância natural de quem chega ao poder, acreditando que vão mudar".

Ato 2: Conhecer o negócio

Nesse estágio o relacionamento com os profissionais do clube é constante - diário -, do mesmo modo que com a torcida e imprensa. É quando a nova diretoria começa a conviver com os funcionários, conhecer os profissionais. Eles são lá em torno de 80. E deles começa-se a receber uma quantidade absurda de informação e começa-se a formar uma nova convicção. "Você passa a criar a sua nova visão de futebol. Por conhecer o ambiente interno, o entendimento começa a distanciar-se do conhecimento externo. Percebe-se que muitas vezes o jogador não joga porque chegou bêbado, teve problema com a família, o filho está doente ou foi traído pela mulher. Não se trata de saber mais ou menos, mas é a quantidade de informações que se tem". Não a toa, ao final da palestra Ximenes citará o físico e pensador Marcelo Gleiser: "O conhecimento é como ilha que tem como fronteira o desconhecido. Quanto mais cresce o nosso conhecimento, maior fica a fronteira com aquilo que desconhecemos."

Ato 3: O Sucesso sobe à cabeça

As conquistas chegam e nem tudo é glória. Após as primeiras consagrações podem começar a surgir alguns deslizes. E todos estarão vendo, ouvindo e anotando declarações. Ximenes brinca: "90% dos problemas do futebol é vaidade. Os outros 10%, consequência da vaidade...". Podem surgir divisões: de um grupo que começou com vinte, quinze estão de um lado e cinco vão para outro. Dentro da própria casa, surge a inveja e o ciúme. Ou a prepotência: "então futebol é só isso? Vamos manter assim e vamos ganhar tudo!". É nesse momento que o executivo de futebol começa a ter dificuldade, a ser questionado. Ximenes cria uma situação hipotética: "Uma semana depois do primeiro título o presidente, passa dando entrevistas. E estão todos anotando. Mas ele efetivamente acredita naquilo. Que não é qualquer derrota que derruba treinador, que estamos profissionalizando". Nesse momento, o dirigente está viciado no futebol. E isso não se tira mais. Entretanto, "nada no futebol dura mais que 24 horas...".

Ato 4: O ônus do bônus

O dirigente que acreditava que tinha crédito com a torcida, imprensa e ambiente interno percebe que no futebol "crédito" não serve diante de eventuais insucessos. As pessoas começam a cobrar por todas as declarações dadas. Contratações são questionadas e são cada vez menores os votos de confiança. Se a torcida começa a perder a confiança, surgem as soluções emergenciais, afinal novas eleições podem estar chegando.

Ato 5: Encruzilhada: fim ou recomeço

Chegará o momento que o dirigente terá que se decidir: "vou para casa ou aproveito toda a experiência para recomeçar?". É a hora do retorno ou do profissionalismo. Hora de tirar proveito da experiência para crescer: os caras lá de trás não eram tão ruins como pareciam e sempre há muito a aprender. "Vou ser mais humilde, fugir da arrogância?", questiona e emenda: "Eu vou ser vencedor a partir do momento que souber reconhecer minhas derrotas. Só se melhora quando se admite erros". No futebol existe explicação para tudo. Você tem que saber aceitar o futebol e não explicar.

Sobre a realidade Ximenes relativiza: "Há pessoas boas lutando e pessoas boas são engolidas pelo sistema. Mas não se pode negar que os avanços estão ocorrendo. Tem muita coisa avançando no futebol brasileiro. Não tenham dúvida. Mas vai continuar gente boa perdendo e gente ruim ganhando, faz parte também".


O espaço para questões serviu para que Ximenes falasse mais especificamente sobre a função do executivo de futebol. Ao contrário do que poderia parecer, ele se declara um defensor radical do dirigente amador. "Havendo limites, sou favorável à sinergia que pode vir do profissional aliado à paixão". Mas aproveita para ressaltar: dirigente não faz caridade, pois quem assume a função tem ganho de poder e de satisfação da realização por seu clube. E também reclama de algo que que vem percebendo acontecer: CEOs (ou diretores executivos) com status de treinador, ou seja, suscetíveis a resultados de curto prazo. Quanto a uso de ferramentas, Ximenes defende que o segredo é saber gerir pessoas. "Software é só ferramenta". Mas ferramentas são imprescindíveis: "O futebol tem mil variáveis que não se controla e algumas que você controla. Você não pode é perder por aquelas que você controla".

Além da já mencionada citação da metáfora entre ilha e conheimento, o palestrante fecha indicando o livro "A Lógica do Cisne Negro", de Nassim Nicholas Taleb. A lógica é uma outra metáfora, agora para se referir a eventos raros, improváveis, de difícil previsão, que causam grande impacto e que não somos preparados para lidar porque, simplesmente, desconhecemos. E por que cisnes negros? Antes da descoberta da Austrália, todos achavam que os cisnes eram brancos, ninguém nunca tinha visto um cisne negro. No entanto, não é porque não eram conhecidos, que os cisnes negros não existiam.