sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Mudar modelos, conhecer a realidade e planejar certo



Com o vídeo acima, de um projeto sobre novas maneiras de se trabalhar e de se enxergar o trabalho, Rogério Delanhesi, o Pulga, iniciou sua palestra para o Convergência Colorada, no final do mês de novembro.

Durante doze anos, atuou como profissional no time de basquete do Inter e Seleção Gaúcha e foi técnico do Grêmio Náutico União e Seleção Gaúcha. Antes, chegou a se aventurar no futebol. Integra atualmente a seleção Brasileira de Máster de Basquete, 5º lugar no campeonato mundial de 2005, realizado em Orlando (EUA). Graduado em Educação Física, especializado em Administração e Marketing Esportivo, mestre em Design, Delanhesi já trabalhou como Diretor do Internacional, foi Diretor de Marketing da Unisinos e da ONG Parceiros Voluntários.



Hoje, atuando como consultor, Pulga define seu trabalho como gerenciar complexidades. Para explicar do que se trata, vale-se de uma reflexão: a ciência de hoje não é a mesma que Descartes conheceu. Saímos do racionalismo científico e hoje vivemos sobre a teoria da complexidade, na qual a abordagem da ciência é de modo transdisciplinar, da necessidade de superar as fronteiras entre as disciplinas.

E por isso Pulga cita o sociólogo francês Edgar Morin para dizer que os saberes tradicionais submetiam a um processo reducionista, isto é, a simplificação passa por cima da desordem e das contradições existentes em todos os fenômenos e nas relações entre eles.
"A realidade não é facilmente legível. As idéias e teorias não refletem, mas traduzem a realidade, que podem traduzir de maneira errônea. Nossa realidade não é outra senão nossa idéia da realidade".
A citação extraída da obra de Morin é base da defesa do palestrante de que interpretação é tradução, reconstrução dos acontecimentos à luz da concepção do intérprete. Ao interpretar um fato, o risco da ilusão e do erro se faz presente na subjetividade do sujeito conhecedor, do pesquisador.

É desse contexto, de visão holística das coisas, da transdisciplinaridade que Pulga passa a abordar o metaplanejamento, técnica para raciocinar não somente sobre o problema que está sendo solucionado em um plano, mas sobre o processo de planejamento em si. Antes de apontar pontos fortes e fracos, é preciso estabelecer ou refletir sobre missão e visão - respectivamente, como fazer e onde chegar.



Mas, para tanto, ele ressalta: modelos que quando não estão em sintonia com a realidade podem provocar decisões erradas. E de Morin, o palestrante agora vai buscar na obra de Peter Senge (A Quinta Disciplina) a ideia de modelos mentais - esta que vem a ser a segunda disciplina de sua obra (as outras disciplinas são: o domínio pessoal, a visão compartilhada, aprendizado em equipe e o pensamento sistêmico).

Modelos Mentais, para Senge, são idéias profundamente arraigadas, generalizadas ou mesmo imagens que influenciam nosso modo de encarar o mundo e nossas atitudes. Muitas vazes não temos consciência de nossos modelos mentais ou das influências que eles exercem sobre nosso comportamento. É comum julgarmos pessoas e situações à luz dos nossos preconceitos, dos pressupostos que reside na profundidade do nosso ser. São ativos, modelam nosso modo de agir, em parte porque influenciam o que vemos. Duas pessoas com diferentes modelos mentais podem observar o mesmo acontecimento e descrevê-lo de maneira diferente, porque olharam para detalhes diferentes.

Um exemplo, de uma parábola que Pulga buscou na vida real: há alguns anos, veranistas se depararam com uma baleia encalhada à beira de uma praia. De imediato, buscou-se acionar forças para que se devolvessem o animal ao oceano - o que diante da mobilização foi realizado com sucesso. Entretanto, nos dias seguintes o animal voltou ao mesmo local e morreu. Biólogos afirmam ser este comportamento recorrente. Então, o palestrante, mais do que questionar, provoca: por que não deixar a natureza agir? Mude o modelo, deixe-a. A jubarte encalhada no litoral gaúcho, em 2010, hoje é peça importante do museu da UFRGS.

Utilizando os conceitos vistos para o futebol, especificamente para a gestão de o clube, chega-se então à pergunta: o que deveríamos fazer? E, baseado em toda a reflexão vista até então na palestra Pulga salienta:  é preciso usar metodologias e ferramentas condizentes com a realidade para desenvolver as potencialidades e atingir a missão e visão de negócio do clube.

"Ganhar é consequência, não a causa." 

Ao tratar especificamente sobre o Internacional, Pulga passa então a interagir mais com os ouvintes da palestra, deixando para os participantes as respostas de diversas questões propostas, desde o que envolve o negócio do clube para atender seus associados, competir esportivamente na elite do futebol e explorar seu estádio. Por exemplo, ele pergunta:
"É mais importante ter mais sócios ou ter um maior valor de ticket médio por associado? O novo Beira-Rio será um equipamento de lazer ou um estádio de futebol reformado? O Inter precisa ser comandado por um técnico ou um treinador?"


As respostas dependerão. Não serão as mesmas para todos e não significa necessariamente que uma estará certa e a outra errada, pois dependerá de onde se quiser chegar. Isto é planejamento. O processo a ser executado nem sempre será compreendido externamente, ele salienta. O importante é ter convicção de onde se quer chegar. "Prefiro ser rejeitado pelas coisas que sei do que quisto pelo que não sei", diz.

Sobre a diferença entre técnico e treinador, ele define qual seria a sua estrutura ideal buscando o exemplo de outras competições como o basquete ou futebol americano: acima destas duas funções, seria necessário ter uma diretoria (estabelecendo diretrizes) para, numa posição intermediaria, ter um técnico (pensando o time) e, por fim, um treinador (aplicando treinos específicos).

E, assim como no vídeo lá do início se propõe a pensar novas maneiras de se trabalhar e ver o mundo, por que não se pensar numa estrutura de futebol diferente para o clube? Pois, mesmo que se mude os dirigentes, se o modelo permanece, a perspectiva é de que o resultado seja semelhante.